uma família (realmente?) numerosa 1

terça-feira, maio 27, 2014


‘Agora vais ficar por aqui, certo?’ A minha mãe faz-me a pergunta, a medo, mas com um sorriso, como que a dizer, obviamente que a resposta é sim, ou seja, nada de ter mais filhos. Eu, porém, não lhe respondo nem sim nem não e, de forma mais ou menos dissimulada, consigo mudar o assunto. Porque o assunto é este: que ousadia insana ter chegado ao quarto filho!
Ousadia, porque nenhuma mulher pode, no Portugal em que vivemos, sequer sonhar em ter mais do que, vá, dois filhos. O estigma social é quase automático e só desaparece, no meu caso, pelo menos, por causa das minhas habilitações académicas. Sim, eu sei, é ridículo. E ainda mais quando me lembro que até no boletim de grávida tive que as indicar. De repente, fica tudo mais ou menos ok. Ah, doutorada, muito bem.
Insana, porque, esmagadas sob a terrífica sombra da crise, as famílias portuguesas só estão autorizadas a encolher-se, infinitamente, até, porventura, não lhes restar mais nada de humano senão os números de identificação fiscal e de beneficiário da segurança social. Pois. Neste ponto, não há nada que me valha. Aliás, agora sou insana ao cubo. Primeiro, já era oficialmente insana por ter decidido estudar ciências... sociais (?). Segundo, por não ter aderido, nos últimos oito anos, a nenhuma das irresistíveis promoções do meu servidor de rede telefónica móvel (e até consegui conservar o mesmo telemóvel!).
No meu íntimo, eu sei que devia ripostar e defender a viva voz os ideais e valores da vida familiar, apontá-los como um dos fundamentos mais estruturantes da vida em sociedade, blábláblá e explicar que, embora menos visíveis e dificilmente quantificáveis, os benefícios de fazer parte de uma família numerosa são imensos e irreversíveis. Bem vistas as coisas, não há, realmente, melhor justificação para viver no meio de uma família numerosa. Bem vistas as coisas. Todavia, estas alegações não funcionam muito bem por palavras. Não dá para argumentar. Só vendo, mesmo.
E ao ver, parece que estamos na casa dos ursos, na história da menina de caracóis dourados. São quatro individuais, cada um com o seu respetivo prato, copo, talheres e guardanapo, na mesa da cozinha. São quatro camas e quatro prateleiras de roupa, no quarto. São quatro escovas de dentes, na casa de banho. Há sempre um que é maior, dois médios e um pequeno. A estes quatro de tudo acrescentem os dois dos grandes (o pai e a mãe). É assim uma espécie de multiplicação infinita que… só vendo.
Para que se deite um novo olhar sobre aquilo que o mau senso comum rotula de divisão e diminuição, espero conseguir falar e escrever muito sobre a multiplicação dos espaços, dos sons, das cores e dos sabores no meio de uma família (realmente?) numerosa.


Nome: Marta Filipe Alexandre
Blogue: http://martafilipealexandre.wordpress.com/
Facebook: https://www.facebook.com/marta.f.alexandre


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